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Da Costura ao Cuidado: A jornada de Fuá

Atualizado: 21 de jun. de 2024

Moradora de favela em Bauru, estilista transforma roupas descartadas em verdadeiras obras de arte 


Por Eshiley Lis Sousa


Fuá, estilista da comunidade. Foto por: Eshiley Lislaine

Prendo meu cabelo em um coque alto e saio caminhando pelas ruas do bairro Jardim Europa, em Bauru. São 15h do dia 30 de maio e o sol escaldante da cidade me acompanha. Vou a pé, pois nenhum Uber aceitaria me levar à favela da região. Seria difícil explicar que os moradores de lá não têm endereço definido.


Conforme avanço na caminhada, as ruas chiques com casas grandes, que parecem cenário comercial de margarina, se transformam em casas mais simples. O asfalto dá lugar a uma estrada de barro. Estou chegando ao meu destino. As pessoas na rua me encaram, outras me cumprimentam e os cachorros quase me atacam - até agora, quatro me fizeram apressar o passo.

Viro na segunda rua à esquerda e chegou ao quintal comunitário. Estou no lado colorido da comunidade, ao lado de Fuá.


Solenidade Roque, de 48 anos , conhecida como Fuá, possui uma forte presença na favela que fica às margens do Jardim Europa, bairro de classe média alta de Bauru. Ela mora no local desde os 7 anos, quando sua família se estabeleceu no topo da vila, em meio ao mato que viria a se tornar uma favela. Com 44 anos de residência, ela se destaca entre o vai e vem das crianças, o verde das árvores e o som dos cachorros latindo.


Sem manter contato visual comigo, Fuá ajeita seus cabelos e seus olhos se iluminam ao recordar como tudo começou. Na infância, encontrou inspiração para sua vocação. Sem dinheiro para comprar brinquedos, adotou uma boneca sem braços encontrada no lixo e decidiu aprender a costurar para vesti-la.


À medida que crescia, sua paixão pela costura se intensificava. Com a ajuda de uma sobrinha, aprendeu a costurar na máquina e, mesmo quebrando muitas agulhas no caminho, aperfeiçoou suas habilidades.


O amor pela costura, que se iniciou a partir do cuidado com a boneca, passou a ser destinado às crianças. "Tudo que as crianças pedem e precisam, se estiver ao meu alcance, eu faço", diz.

Esse carinho pelo cuidado e o vestir foi a inspiração para que Fuá produzisse uma série de confecções de vestidos para meninas se formarem no pré-escolar. Depois, expandiu as roupas para meninos e até mesmo para as mães.


Apesar dos olhos distantes, Fuá revela ser uma observadora atenta, capaz de captar a personalidade de cada pessoa e transformá-la em roupas que refletem quem são. 

"Eu já vejo seu estilo todinho assim. E já sei, ela vai gostar disso, ela gosta disso. E sempre agrada, raramente desagrada", orgulha-se.

Da confecção das roupas à imaginação das crianças, Fuá percebeu que queria ir além das vestimentas, queria transformar a infância da criançada, seja criando vestidos e fantasias de princesas ou capas e máscaras para meninos se tornarem ninjas. "As crianças precisam ser crianças e eu tento ajudar com o que eu posso", diz.


Fuá mudou sua rotina para dedicar-se a essa causa. Durante a semana, se ocupa com a costura: confecciona e vende roupas em seu brechó para sustentar a casa. Seu brechó é uma fonte de orgulho. Lá ela recicla roupas e cria novas peças. "Isso me deixa feliz. Em dezembro do ano passado, vi uma moça na praia usando um short que fiz para meu desfile "pais e filhos", pedi para ela me enviar uma foto. Imagina? Fuá famosa na praia", conta, rindo. Nos fins de semana, se dedica inteiramente às crianças da comunidade.


Admiradora fervorosa da natureza, Fuá evita o descarte de tecidos sempre que possível. Ela coleta roupas descartadas em lixos, bazares e brechós de Bauru e de igrejas próximas à favela. Essas roupas, muitas vezes desgastadas pelo tempo e sem valor aparente, ganham nova vida em suas mãos habilidosas. De um vestido antigo, cria bermudas, capas de almofadas e tapetes. Para Fuá, uma peça de roupa é mais do que um único modelo: é uma tela para novas histórias. Cada peça reciclada é uma oportunidade de contar algo sobre a vida das pessoas, assim como a sua própria.

Enquanto recicla tecidos e cuida das crianças, Fuá observa atentamente o ambiente da comunidade. Ela coleta informações que refletem em suas criações, posteriormente exibidas em seus desfiles. Com o tempo, Fuá percebeu que tanto as crianças quanto as mães desejam sentir-se especiais, e assim surgiu a ideia dos desfiles. Ela transforma roupas em peças mais extravagantes e chamativas do que as do dia a dia, convertendo crianças, pais, mães e avós em verdadeiros modelos.


Os desfiles de Fuá tornaram-se uma vitrine do que suas mãos e criatividade podem fazer: transformar peças descartáveis em obras de arte e pessoas comuns em estrelas. Fuá enxerga além da costura padrão e vê o potencial em cada tecido, criando roupas que refletem a essência da comunidade e suas histórias.

Mães da comunidade modelando no desfile "pais e filhos" confeccionados pela Fuá. Foto por: Eshiley Lislaine

Além da costura, Fuá é apaixonada por cultura, livros e música. Durante a entrevista, perguntou-me sobre "A Menina que Roubava Livros", uma de suas leituras favoritas. Também me questionou sobre o que fiz no feriado do Dia dos Povos Indígenas. A entrevista rapidamente se transformou em um bate-papo, onde ela compartilhou suas experiências culturais e me convidou a fazer o mesmo.


"No Dia do Índio eu fiz de tudo, roupa para as crianças, arco e flecha, fizemos fogueira, pegamos argila no rio, pintamos a nossa cara com tinta que vem das frutas, comemos mandioca, somente coisas da fogueira. Eu levei o conhecimento que tinha para eles, o pouca da cultura que tenho eu passo."


Quando questionada sobre os motivos de sua dedicação à favela, se emociona: 

"Eu sempre digo para as crianças que elas precisam estudar para sair dessa favela. Eu fiquei aqui para tirar elas. Alguém tem que ficar", revela rindo.

"Eu não sou um projeto, eu sou alguém que faz". Essa é a razão de Fuá continuar onde está. Mesmo quando decide largar tudo, não consegue, pois essas pessoas, a moda, a comunidade e a cultura já fazem parte dela.


"Eu tento ajudar dessa forma, ensinando e ocupando a mente das crianças. Mas infelizmente, muitos vão se perder no caminho. Alguns se envolvem com as drogas, outros com más companhias, e algumas acabam na prostituição. Mas o que tentamos é salvar pelo menos alguns, como foi o caso dessa moça que consegui ajudar. Existem vários outros casos que conseguimos ajudar. É muito gratificante", explica.


Com gênio forte, Fuá defende suas ideias com unhas e dentes. E entrega o que tem à comunidade. "Eu sou difícil, eu sei, tem mães que não gostam de mim, mas confiam seus filhos comigo, então é estranho, mas há respeito". Ela é avessa a conselhos não solicitados, preferindo trabalhar em silêncio . Sua filosofia é simples: "Tem que fazer com amor, então eu faço sozinha".


Sem se preocupar com o avanço da idade, ou em sair da favela, ela afirma: "Eu quero fazer muita coisa ainda". Um de seus sonhos é fundar uma marca de roupas, "Menina Fuá". Outro, mais recente, é definir o tema do próximo desfile ou a história que contará para as crianças no sábado seguinte. "Eu não vou parar com isso nunca, eu vou continuar."




Quintal comunitário onde Fuá realiza seus desfiles. Foto: Eshiley Lis Sousa


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