Há espaço para o spray na cidade-lucro
- Tiago Trombini Ramazzina

- 11 de jun. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 20 de jun. de 2024
O grafite, forma de arte urbana marginalizada, desafia as barreiras da lógica capitalista, buscando espaço para expressão e resistência
Por Tiago Trombini Ramazzina
O grafite é, há décadas, uma prática cultural das mais controversas e debatidas na esfera urbana. Esse movimento, ainda que seja crescente no mundo e tenha ganhado certa valorização social, é marginalizado e visto por parte da sociedade com certo preconceito. Globalmente presente, o grafite se popularizou nos anos 70, e chegou no Brasil ainda no final dessa década. Inserido no contexto da Ditadura Militar, foi estigmatizado, bem como muitos outros movimentos sociais e artísticos, uma vez que é uma forma de resistência social.
O grafite é encontrado nas vias públicas, paredes, muros e fachadas, aos olhos de toda a população. Para muitos, tornou-se símbolo de vandalismo e poluição visual. Não é bem vindo nos muros, sobretudo em áreas de camadas sociais mais elevadas.
É colocado às margens de uma sociedade capitalista que não o considera arte, muito menos leva em conta as origens sociais dos grafiteiros e sua necessidade de expressão. Essa segregação surge de uma aversão àquilo que traz as marcas das classes populares.
Há grafites espalhados pelos muros de todas as cores, estilos e origens: a cidade ganha a vida com essa forma de expressão, as ruas são tomadas por arte e por artistas. Por que alguns se recusam a enxergar a potência dessa prática cultural?
Na lógica capitalista, a arte é transformada em objeto de venda e lucro. Segundo reportagem publicada no jornal Folha de S. Paulo, em abril de 2023, o mercado de venda de obras de arte ultrapassou os 70 bilhões de reais. Mais do que nunca, a arte está entrelaçada ao capital e, por isso, está ligada a suas relações de poder. Uma arte não burguesa como o grafite, que surge das entranhas sociais, portanto, deixa de ser valorizada.
Como expressou Banksy, um dos mais conhecidos grafiteiros e ativistas políticos do mundo, em seu livro “Guerra e Spray”, esses indivíduos que se opõem ao grafite "acham que nada tem o direito de existir se não gerar lucro". Os mandantes das cidades "não entendem o grafite", diz o autor, isso por que não conseguem conceber uma arte popular, marginalizada, que não sirva para especulação monetária.
Além disso, o grafite ocupa o espaço público, aos olhos de todos. É uma forma de arte sem suporte definido; artistas podem fazer de tela toda uma cidade, muros e fachadas em branco. Torna-se uma presença indesejada, mas que sempre pode ser observada, um lembrete da proximidade e força de movimentos sociais.
Presente em quase todas as grandes cidades, o grafite hoje é, inclusive, exibido em museus, exposições e outras fomentações artísticas, e tem maior aceitação social. O “Upfest”, por exemplo, criado e sediado há 15 anos em Bristol, no Reino Unido, é o maior evento de grafite e arte urbana da Europa e um dos maiores do mundo, com duração de duas semanas e espaço para centenas de artistas.
O valor dessa prática, porém, não é consenso: parcelas da sociedade, ainda distantes de um entendimento coletivo do espaço urbano e da consciência social, se distanciam do grafite. Há rejeição aos grafiteiros e, como um todo, ao uso do espaço público para além dos muros e das mansões. Surgido do coletivo para o coletivo, o grafite se desenvolve como uma força de resistência em meio a uma sociedade consumida pelo capital.


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