top of page

Os desafios da Cultura

Atualizado: 20 de jun. de 2024

Secretário municipal de Bauru discute dificuldades na estruturação da pasta


Por Luísa Tabchoury


Paulo Eduardo Campos em seu escritório na Secretaria Municipal de Cultura. Foto: Luísa Tabchoury

Segundo a pesquisa “Hábitos Culturais 2023”, produzida pela Fundação Itaú e Datafolha, 46% dos brasileiros indicaram que há ausência de determinadas atividades culturais em suas cidades, como festas, shows de música e festivais. Outro aspecto levantado pela pesquisa foram os motivos pelos quais as pessoas não participam de atividades culturais presenciais: 19% dos entrevistados responderam que existem aspectos econômicos como a falta de dinheiro, o valor do ingresso e os gastos com deslocamento. Os resultados da pesquisa demonstram dificuldade de acesso à arte por parte da população brasileira. 


A revista Gravura entrevistou o secretário municipal de Cultura de Bauru, Paulo Eduardo Campos, para discutir alguns desafios relacionados à democratização do acesso às atividades culturais. O bate-papo foi no Centro Cultural "Carlos Fernandes Paiva", onde está localizada a Secretaria Municipal de Cultura. 


Campos é formado em Artes Cênicas pela Unisagrado e em Produção Audiovisual pela Faculdade Paulus de Comunicação (FAPCOM). Conforme seu perfil  no Instagram, o secretário é também “empresário, produtor audiovisual, ator, cantor, apresentador, budista”. 


O secretário explica as ações adotadas pela pasta sob seu comando desde 2022. Defende avanços em ações culturais e apresenta justificativas para críticas endereçadas à sua gestão, como os gastos com o show do cantor Luan Santana em 2023. Pondera que há problemas na comunicação destas atividades e destaca a falta de apoio na divulgação da Cultura pela imprensa da cidade. Acusa também opositores do governo da prefeita Suéllen Silva Rosim (PSD) de divulgarem fake news.


Gravura: Quais recursos e projetos a Secretaria de Cultura de Bauru mantém para o fortalecimento da produção de artistas locais? 


Paulo Eduardo Campos: Desde o ano passado, nós abrimos um edital que se chama “Cultura em Ação” em que contratamos artistas regionais da cidade. A gente abriu no mês passado este edital que teve 315 inscrições e, se eu não me engano, foram 157 contratações. São artistas desde cosplay, DJs, drag queens, palestrantes, músicos, cantores, bandas. Eles podem participar de todos os eventos durante o ano ganhando cachê que chega de mil reais até 3 mil reais. Esse ano a gente abriu também um cachê de mil reais para o produtor cultural. Então tem pessoas que vão ganhar aproximadamente 4 mil reais. Esse é o “Cultura em Ação” que, a cada ano que passa, vamos reformulando e melhorando. Neste ano, é focado nos artistas da cidade. Pela primeira vez nesta gestão, depois que eu assumi junto com a prefeita, a gente pensou nisso. Eu tenho uma banda no mundo particular e sempre pensava: “como é que um artista local toca no aniversário da cidade e não ganha nem um cachê?”. Era horrível, eu pensei nisso e montamos esse edital. Hoje em dia todos os músicos da cidade ganham esse cachê, pelo menos para poder participar dos eventos. 


Como o senhor avalia as condições de democratização ao acesso às produções culturais em Bauru? 


O aniversário da cidade seria uma parte dentro desta [ação de] democratização, em tornar popular e acessível ao público [as ações culturais]. Nós trazemos shows grandes e todo mundo fala “porque não investe esse dinheiro nos artistas regionais?”. Mas existe uma diferença nisso. Você coloca um Luan Santana, que é 410 mil reais [o cachê], mas esse dinheiro é para ser gasto no entretenimento da cidade e trazer 80 mil pessoas. É um artista desse que vai trazer esse nível e essa quantidade de pessoas e não um artista regional. Trazer um Luan Santana, que muitas vezes as pessoas criticam, faz parte também do entretenimento e da cultura. Essa democratização é para um público que nunca teve acesso e dinheiro para assistir um artista desse porte, e ele pode assistir gratuitamente. Como tem a Semana do Hip Hop, onde, por lei, investimos em artistas de grande porte e também nos regionais. Essa semana acontece no final do ano, em novembro, e nós abrimos um edital. Então são vários nichos que a gente encontra na cultura e que torna acessível ao público. Esse é o investimento, esse é o dinheiro que a gente tem que gastar com a população. Nesse ano e no ano passado, a prefeita investiu mais de 17 milhões na pasta, isso é muito para a Cultura. A gente sabe como funciona, não é sempre investido, saúde e educação sempre vem em primeiro lugar. Mas, nesses anos, tivemos muito investimento na nossa cultura.


Quais são os principais desafios neste sentido? 


Eu acredito que tem uma dificuldade com a comunicação. Não é todo mundo que fica sabendo, por exemplo, que nós temos a Divisão de Ensino às Artes (DEA), onde damos aulas gratuitas de balé, de teatro, de circo, de flauta, de violão. É uma demanda muito grande que atende a população gratuitamente. Eu acho que a maior dificuldade é a comunicação, apesar de a gente mandar [a informação] para a imprensa [da cidade], e tem a imprensa da prefeitura. Nós mandamos para todos os veículos de comunicação, mas eles que escolhem a matéria que querem colocar. A cultura não é aquela que vende muito, a não ser quando é um artista grande. Isso é uma dificuldade que vem de muitos anos, mas a gente está tentando consertar. Hoje em dia postamos mais coisas no Instagram e na página da Cultura no Facebook. 


Eu acredito que tem uma dificuldade com a comunicação. Não é todo mundo que fica sabendo que nós temos a Divisão de Ensino às Artes (DEA), onde damos aulas gratuitas de balé, de teatro, de circo, de flauta, de violão.

Em quais regiões e em quais estabelecimentos estas produções culturais estão concentradas?


Bauru e região. Por exemplo, nós temos o caminhão palco que roda Bauru inteiro praticamente. São vários bairros da nossa cidade, os quatro cantos, que a gente leva entretenimento, cultura e lazer. Em regiões mais periféricas, a gente vai com os caminhões palcos, no norte e leste, pois tem mais demanda que a gente recebe dos ofícios e aprova para o caminhão ir para a população. 


A Secretaria de Cultura de Bauru mantém uma página para o cadastro de artistas, grupos, associações e outros profissionais da arte e cultura. Quais foram os resultados deste mapeamento, no sentido de manutenção de projetos ou orientação de novas políticas públicas?


Nós não temos um dado específico. Entra a PNAB (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura) agora, e nós fazemos as reuniões oitivas, como teve na Lei Paulo Gustavo. A gente tem esses dados sim, mas não específico da cidade de Bauru. É o que a gente quer fazer com a Aldir Blanc 2. Virá uma plataforma digital em que podemos ter esses dados e começar a ter essas informações de artistas. A gente tem os que participam do edital “Cultura em Ação”, mas ainda não tem um casting de artistas da cidade. Ainda não pensamos nisso, mas a gente quer focar futuramente, com essa modernidade nunca usada na prefeitura.  


No ano de 2022, a Secretaria de Cultura de Bauru disponibilizou 12 editais. Já em 2023, foram 18. Quais são as expectativas do número de editais para 2024? 


Como é um ano eleitoral, não deve ultrapassar o [número] do ano passado. Isso é proibido por lei e o Tribunal de Contas cai em cima. A gente não pode fazer, em um ano eleitoral, ações que favoreçam um candidato a prefeito. Eu acredito que vai ser nessa faixa dos nossos dezoito editais, que foram no ano passado, ou de menos editais, mas mais reformulados e mais pensados. Até porque tudo é um teste: a gente faz um edital, vê como funciona, se deu certo “ok” e se não deu a gente vê o que deu errado e conserta para atingir mais pessoas.


Esses editais irão abordar pautas diferentes dos anos anteriores? 


Sim, alguns eventos têm especificidades. No Comic Fan Fest, é a primeira vez que estamos contratando cosplayers, uma modalidade que nunca havia sido contratada pela Secretaria de Cultura. Tem os indígenas e temas da consciência e da cultura negra. São editais que ano passado não tinha e esse ano a gente já focou, e estamos contratando mais. E tem uma vantagem com a documentação esse ano, porque muita gente tinha dificuldade de trazer os documentos ou tirar pela internet. Esse ano você só traz o documento se passar [na seleção], não precisa mais correr e ir atrás de documentação, como era no ano passado. A gente mudou um pouquinho e tá facilitando muito mais para a pessoa se inscrever e não achar que é muito burocrático participar de um edital da Prefeitura. Abrimos  dias também para tirar dúvidas, para poder explicar e até para mostrar que “é aqui que tira o documento”. 


Os editais incentivam novos modelos de arte e produções de populações marginalizadas da cidade? 


Com certeza. A gente tem o Hip Hop que, como eu disse, é feito  em novembro. Aos poucos vamos modulando e reformulando isso para chegar muito mais nessa parte dos marginalizados. Não só isso, [existe] o preconceito de muita gente de, por exemplo, um indígena participar de um edital, porque é um pouco mais difícil montar um vídeo e fazer uma inscrição. Na Paulo Gustavo tem as cotas, pegamos este exemplo e colocamos nos nossos editais. Com o tempo, a gente vai melhorando e chegando muito mais nesta região [de populações marginalizadas].


A cidade de Bauru quase perdeu os recursos da Lei Paulo Gustavo devido um atraso no encaminhamento de projetos para o Governo Federal. Como a Secretaria lidou com essa dificuldade?


Na verdade não teve esse atraso porque o prazo quem dá é o Ministério da Cultura, não é o município de Bauru. Nós só tivemos essa prorrogação a pedido dos próprios artistas, porque se não a gente não iria conseguir colocar todas as pessoas que participaram, que são mais de 300. Não teve esse atraso, isso foi uma política que usaram contra o governo, a oposição que fez isso. Eu expliquei que a gente aguarda essa votação na Câmara para dar continuidade na Lei Paulo Gustavo. Esse fake news que inventaram de que “vamos perder a verba”,tem muita gente que falou que “perdeu a verba”, é mentira. Porque até dezembro de 2024 esse dinheiro continua no caixa da Prefeitura e está rendendo juros. A gente consegue, ainda com esses juros, montar um outro edital esse ano com um pouco desse dinheiro para poder passar a verba. Então não teve esse atraso. 


“Não teve esse atraso (no encaminhamento de projetos para receber os recursos da Lei Paulo Gustavo), isso foi uma política que usaram contra o governo”

A Divisão de Ensino às Artes (DEA) atende atualmente 900 alunos em atividades artísticas realizadas em sua unidade central e nos bairros. Para além deste público, como a Secretaria de Cultura incentiva a população que vive fora da região central a ter oportunidade de realizar atividades artísticas?


Nós aumentamos mais um DEA, a unidade 2. Esse número [900 alunos] está um pouco passado, já estamos atendendo mais de 1500 pessoas. Eu entendo [a necessidade] de levar a cultura para fora, mas o nosso foco é trazer essas pessoas até o DEA. Por enquanto, temos as atividades que levam a cultura até o bairro, mas a Divisão de Ensino às Artes (DEA) já é um outro segmento, que é de trazer a população que não tem condições de pagar. Por isso, estamos com duas unidades que estão na região central, que são perto de pontos de ônibus e de fácil acesso à população. Por mais que alguém seja da periferia consegue chegar até esses lugares e têm os passes de ônibus gratuitos que a gente oferece. Quanto a levar a arte à periferia, têm projetos e editais. Nós temos a biblioteca móvel que consegue chegar até os bairros, doando livros para a população. Tem o caminhão palco que leva entretenimento. Tem os museus que levam os jogos pedagógicos. Tem o Revitaliza que vai em todos os bairros e a Cultura está junto levando entretenimento e arte. Além da Divisão de Ensino às Artes, a gente também continua indo até os bairros e vamos continuar cada vez mais.


Em 2024, teremos eleições municipais e o encerramento do mandato da prefeita Suéllen, que se iniciou em 2020. O que deixou de ser feito na área cultural? 


Nós vamos continuar o que foi feito. Não se sabe quem vai ganhar as eleições em 2025, talvez seja ela ou não. Mas, se depender da minha parte e se eu continuar como secretário de Cultura, vamos manter o que conquistamos esse ano. Hoje em dia a gente vê que a cultura é muito mais bem vista na cidade do que antes. Está chegando mais perto da população, eles entendem que a cultura da cidade é feita para a população, para todos os níveis. Eu tenho esse segmento de que a cultura é para todos. Não é esquerda, não é direita e nem do meio. Tomara que outro prefeito que entre, outra prefeita que entre sendo ela [Suéllen] ou não, ou outro secretário, ou outra secretária que continue nesse segmento levando cultura e arte para a população toda, para todos. 


GRAVURA: Você acha que nesses quatro anos faltou alguma coisa para a área cultural?


Sempre falta um pouquinho, né? Não tem como a gente achar que está tudo completo, tudo 100%, mas com o passar dos anos vamos reformulando, modulando, vendo o que a população quer. Também têm as demandas e as oitivas [reuniões entre a Secretaria de Cultura e a população e os artistas locais para alinhamento do uso de recursos de editais públicos]. A gente ouve muito a população e eu sou muito aberto a todo mundo que vem aqui e traz sugestões. Não tem 100% ainda fechado o que é a cultura da nossa cidade, a gente está andando, e vendo o que pode melhorar cada vez mais.


Comentários


Contatos

  • Instagram

@revista_gravura

bottom of page