Por um balé mais democrático
- Luísa Tabchoury

- 11 de jun. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 14 de jun. de 2024
Bolsas de estudos oportunizam a dança para alunos de baixa renda em Bauru
Por Luísa Tabchoury
"Eu fui uma aluna bolsista durante praticamente toda a minha formação artística", disse a diretora pedagógica da escola de dança Studio4, Tainá Cristina dos Santos Barbosa. Foi por conta desse auxílio que Tainá conseguiu completar sua formação como bailarina. Assim como ela, outras pessoas só conseguem ter acesso a esta modalidade de dança por meio de bolsas de estudo.
Segundo dados do Mapeamento da Dança, produzido pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), há uma desigualdade na oferta da disciplina de ballet em instituições de ensino brasileiras públicas (6,8%) e privadas (37,5%). A pesquisa, realizada em 2016, trouxe dados de corporações de danças em oito capitais brasileiras, que abrangem as cinco regiões do país.
Em Bauru, algumas academia privadas oferecem oportunidades para alunos da escola pública. Na Escola de Dança Studio4, as bolsas de estudos são oferecidas por meio de audições em que os alunos são selecionados conforme o nível artístico ou faixa etária. Antes da avaliação, a escola seleciona os candidatos na etapa de inscrição, na qual são priorizadas pessoas que possuem renda familiar de 1 salário mínimo, ou abaixo disso. A escola também seleciona adultos que trabalham com a dança ou pretendem ter este relacionamento profissionalizante. "A gente também dá essa preferência porque encaramos isso como uma continuidade aos estudos daquela pessoa", disse Tainá.
Após doze meses, os diretores consideram a possibilidade de renovação da bolsa de acordo com o aproveitamento do aluno e da escolha dele em continuar nas aulas de balé. Além disso, esse ano a escola está fornecendo aos bolsistas um auxílio mensal para ajudar em gastos eventuais como transporte ou alimentação.
Outro incentivo é o chamado "apadrinhamento" de um professor. De acordo com Tainá, todo professor da escola tem direito a uma bolsa em outra modalidade de dança. Ao escolher apadrinhar uma pessoa, que pode ser um adulto ou uma criança, o profissional transfere este recurso, que tem validade de um ano. O Studio4 oferece atualmente três bolsas de estudos e conta com quatro apadrinhamentos, que correspondem a 10% dos alunos da escola, sendo todos direcionados a mulheres.
Balé para pessoas de baixa renda
As bolsas de estudo também são adotadas na Democratie Studio de Dança. A diretora da escola, Geovana Sarita Zambone Castro, explica que o critério para concessão da bolsa é social, dado o contexto elitizado da prática de balé. "O balé é uma arte que, prioritariamente, sempre foi da elite". O único critério para manutenção da bolsa é a frequência do aluno nas aulas.
Geovana explica que, desde o início, a academia já possuía o objetivo de oportunizar o balé para as pessoas de baixa renda. "A filosofia do Studio é ser um espaço inclusivo", disse a diretora. Essa inclusão foi um fator fundamental na escolha da localização da academia, próxima a pontos de ônibus, e no valor da mensalidade.
Além do acesso ao espaço, a diretora comenta sobre outros gastos associados ao balé como a sapatilha, o collant e meia calça. Para Geovana, a escola de dança deve pensar nesses aspectos para promover um espaço coletivo e "equiparar as oportunidades que deveria ser igual para todos, mas que não são". Atualmente, a escola oferece 7 bolsas de estudos , que correspondem a 10% dos alunos.
Bolsas de estudos masculinas
Na academia Sigma de Dança, as primeiras bolsas de estudos foram dadas a homens. Segundo a proprietária, professora e coreógrafa da escola, Karen Teixeira, as bolsas eram direcionadas principalmente para os meninos que queriam fazer balé. "Nas danças urbanas é muito fácil um homem querer fazer, difícil é ele querer fazer balé", comenta Karen.
Com a estabilidade econômica da academia, as bolsas passaram a ser direcionadas a pessoas de baixa renda. Os bolsistas são selecionados, num primeiro momento, de acordo com o nível artístico e técnico. Porém, se o candidato não possui nenhuma experiência, a proprietária considera o aspecto econômico. "Se essa pessoa estuda em escola pública, a gente tem um olhar diferente e tenta fazer alguma coisa para que ela tenha essa oportunidade", disse Karen. Atualmente a academia mantém 25 bolsas integrais e 60 bolsas parciais, segundo a proprietária.
Benefícios e desafios
Para a diretora da Democratie, as bolsas de estudo permitem maior diversidade do público que pratica o balé e amplia a possibilidade de alunas e alunos de diferentes realidades conviverem no mesmo espaço.
A inclusão de bolsas em escolas de balé, um espaço elitizado, oportuniza que esta dança seja mais acessível para pessoas que não possuem condições financeiras. A dança também contribui para o desenvolvimento pessoal dos alunos. "Existe uma oportunidade da dança deles serem reconhecidos e isso aumenta a confiança, assim como dá um direcionamento do que querem como carreira e estudos futuros", diz Tainá.
Porém, há dificuldades enfrentadas pelos bolsistas, como a distância e o transporte até a escola de dança. Geovana relata que muitas alunas acabam faltando às aulas, principalmente em caso de chuvas, por conta do acesso dificultado a ônibus. Tainá defende que mais escolas de balé em Bauru passem a oferecer bolsas de estudos. "A partir do momento que tem mais escolas que oferecem bolsas, as pessoas têm a opção de procurar escolas que são próximas de onde elas moram e cabem na rotina de deslocamento".




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