“Não é possível viver de arte!”
- Letícia Rosa

- 11 de jun. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 21 de jun. de 2024
Desvalorização da produção cultural independente atinge artistas em Bauru; jornada dupla e trabalho como uber faz parte da realidade da categoria
Por Letícia Rosa

Se nas capitais e grandes metrópoles ser artista já é um grande desafio, no interior os obstáculos são ainda maiores, devido à menor possibilidade de acesso aos recursos para as produções e às dificuldades do alcance de público. Apesar de contribuírem para a riqueza do cenário cultural, muitos são os artistas que em Bauru enfrentam as barreiras da instabilidade e da desvalorização de seu ofício.
Não é novidade que, no Brasil, a classe artística sofre com a falta de incentivo de políticas públicas. No governo Bolsonaro, O Ministério da Cultura chegou a deixar de existir, tamanho o desprestígio dado à pasta pelos conservadores.
Falas como a do Senador Flávio Bolsonaro (PL) - que considera uma das principais leis de fomento à cultura no país como “farra com o dinheiro público” - refletem como a arte é tratada por alguns setores, e dão sinal da resiliência que os artistas independentes precisam ter para continuar seus trabalhos.
É o caso de Vagner Fernandes dos Santos, criador do projeto “Momentos Uberísticos”, que mistura um de seus trabalhos habituais com a expressão artística, publicando tirinhas sobre as situações que vive diariamente como motorista de aplicativo.

“A ideia do Momentos Uberísticos surgiu por eu gostar de fazer quadrinhos e as pessoas sempre me perguntarem quais situações eu passo como um motorista de aplicativo. “São todas histórias reais, tudo que está ali aconteceu mesmo, então eu resolvi expor [as histórias] e já respondo a pergunta dessas pessoas”, diz o quadrinista.
Vagner relata que sua ligação com a arte começou ainda na infância, quando assistia desenhos e sentia vontade de produzir, ou ouvia músicas no rádio e desejava escrever letras parecidas. Apesar dessa longa relação, os trabalhos artísticos que realizou tiveram retorno financeiro suficiente apenas para pagar os custos de produção. Não sobrou alternativa além de fazer outros serviços para se manter.
“Conciliar a vida de artista com a de trabalho formal é uma coisa que tive que fazer, porque o trabalho formal é necessário, e essa arte é algo que começou como um hobby e fui levando”, comenta Vagner, que também é músico e poeta. “É desafiador, porque você tem que ter o tempo para fazer isso”.
Idealizado por ele no final dos anos 90, o grupo “Expressão poética” é o refúgio de muitos artistas independentes da região. Juntos há 25 anos, já lançaram 15 antologias e realizaram diversos eventos.
O artista ressalta a relevância do projeto para a cena artística da região e para seus membros. “Nessa comemoração de 25 anos, a gente tem colhido alguns depoimentos e é emocionante ver como essas pessoas foram impactadas pelo grupo expressão poética. Então, de fato, é aí que eu me dou conta da importância desse grupo”.
Um dos integrantes do coletivo, José Reginaldo é hoje dono de um sebo no centro da cidade. Ele já foi de professor de teatro na Unesp à saxofonista em uma banda de jazz e conta como foi tentar viver da arte em Bauru.
“Minha experiência com a arte foi prazerosa e ao mesmo tempo decepcionante, pela falta de valorização da arte pela sociedade”, diz, ao relatar os motivos que o levaram a abandonar as antigas profissões. “Não é possível viver de arte! Você pode tentar sobreviver, viver não, sem condições!”.

Segundo o ex-professor de teatro, a falta de consumo da produção de artistas locais por parte dos habitantes é também um dos obstáculos para quem quer fazer arte independente na região.
“Há grandes artistas em todas as áreas, grandes músicos, grandes teatrólogos, grandes cantores. Mas o que peca na cidade é a falta de público. Não há uma formação de público cultural. E isso é uma constante, desde os anos 80 até hoje”, protesta. Na opinião de José Reginaldo o público bauruense costuma frequentar apenas apresentações de artistas famosos pelo “status” conferido a esses eventos.
“Se contratarem um artista conceituado, famoso, lota. Mas as pessoas não vão porque gostam da arte, necessariamente. Elas vão porque faz parte do métier, é chique dizer que assistiu a peça ou o show de um determinado artista famoso”, ressalta.
Apesar disso, Reginaldo, que também é formado em radialismo e edificações, segue sendo escritor e membro da Academia Bauruense de Letras. Mantém contato com a arte através da literatura e de sua participação no grupo Expressão Poética.
Ambos os artistas entrevistados pela reportagem concordam que o incentivo à arte é essencial para que esse cenário se transforme. De um lado, Reginaldo acredita que só a educação pode fazer isso acontecer: “O panorama artístico é difícil de mudar por conta do déficit educacional. A educação cada vez mais falha e isso dificulta muito a concepção artística, a apreciação da produção artística. Então, enquanto a educação não melhorar, dificilmente teremos a valorização da produção artística.”
Já Vagner cita as leis voltadas para a área cultural e o apoio financeiro que o governo deve oferecer à classe artística. Menciona inclusive a recente polêmica envolvendo a distribuição dos recursos da Lei Paulo Gustavo na cidade, questão que foi levantada pela revista Gravura em entrevista com o Secretário municipal de Bauru.
Atualmente, o Brasil conta com três leis de incentivo a produções culturais: Lei Rouanet, Lei Aldir Blanc e Lei Paulo Gustavo. No estado de São Paulo, a principal lei de incentivo à cultura é o Programa de Ação Cultural (ProAC) que abate parte do imposto cobrado dos patrocinadores de projetos artísticos. |
Arte como refúgio
Apesar dos empecilhos, o amor desses indivíduos pela arte segue vivo. Quando questionado se já sentiu vontade de parar de trabalhar com produção artística, Vagner respondeu: “Eu não pensei em parar com os projetos artísticos, porque é algo que sempre surge a ideia. É algo que me faz crescer e me sentir realizado também, e ver que isso tem, mesmo que seja um mínimo impacto em outros… já é algo muito importante, já é algo muito relevante para mim”. E apesar de enxergar mudanças necessárias para a região, o artista incentiva outros a continuarem. “Tudo o que eu sempre fiz na questão de arte foi metendo as caras, ou então foi de forma independente. Para mim, o caminho é esse, a gente fazer a nossa parte”.
José Reginaldo, por sua vez, destaca os benefícios, muitas vezes subestimados, que as obras culturais trazem para a sociedade. “A arte serve como uma válvula de escape para a pressão do cotidiano. Mesmo que a maioria das pessoas não perceba isso. Uma música, uma peça de teatro, um show, uma apresentação, um quadro...Tudo isso serve para extravasar as nossas emoções e aliviar um pouco a pressão e as cobranças do dia a dia.”

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